Comparar universidades brasileiras a bilionárias de rankings globais é certo?

Das 197 instituições de ensino do país, só 10% aparecem entre as melhores do mundo

Queen’s College, na Universidade de Oxford, a melhor do mundo  - Kao Fenlio/Wikimedia Commons
Sabine Righetti
São Paulo

Cerca de 10% das 197 universidades brasileiras aparecem entre as mil melhores do mundo em rankings globais. Para especialistas, no entanto, não está claro como devem ser feitas comparações entre países —e, menos ainda, se o Brasil deve ter políticas para estimular especificamente as escolas de "nível internacional".

Avaliações de universidades do globo tendem a valorizar o impacto da pesquisa científica, ou seja, a quantidade de vezes que um estudo é mencionado por outro.

Isso é entendido como sinônimo de qualidade: boas pesquisas têm repercussão no meio acadêmico global.

No THE (Times Higher Education), principal ranking que existe, o impacto das pesquisas científicas vale 30% da nota total de cada universidade. Significa que vai melhor quem fizer pesquisas mais citadas.

O problema é que estudos focados em temas nacionais (como doenças típicas do Brasil) ou publicados apenas em português receberão menos menções globais —o que não quer dizer que esses trabalhos sejam academicamente ruins.

“O Brasil precisa decidir como quer se comparar internacionalmente e tem de criar indicadores para isso”, diz Luiz Cláudio Costa, ex-presidente do Inep-MEC e presidente do Observatório de Rankings Acadêmicos e de Excelência (Ireg, na sigla em inglês).

Foi isso que fez a China. O governo, no âmbito de uma política de desenvolvimento do ensino superior, criou em 2003 uma avaliação para se comparar com o mundo —o Ranking de Shangai.

A partir dos resultados, a China selecionou nove universidades para receber aportes extras de recursos e, assim, serem ainda mais competitivas. 

A política teve resultados mensuráveis: a Universidade Tsinghua (uma dessas nove escolas) subiu de 71º lugar no THE 2012 para 23º no THE 2020. Para se ter uma ideia, a USP —a melhor do Brasil — caiu de 178º para o grupo 251º-300º no mesmo período. 

Outros países, como Canadá e Austrália, seguem a mesma linha: investem mais em um punhado de universidades para que sejam altamente competitivas no globo. 

“Mas se a gente reforçar a necessidade de projeto de injeção de recursos em algumas universidades de nível mundial, considerando a conjuntura do Brasil, o que vai virar o que não se encaixa nesse padrão?”, questiona Lara Carlette Thiengo, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e membro da rede Rankintacs, que se dedica a estudos sobre o tema. 

É possível, no entanto, ter diferentes programas de nível mundial em várias universidades do país —no lugar de ter um seleto grupo de instituições de excelência global. Isso significa desenvolver um “sistema de ensino superior de nível mundial”, e não necessariamente selecionar um grupo de universidades para que recebam verba extra.

É mais ou menos essa a lógica da avaliação de programas de pós-graduação brasileiros pela Capes, agência federal ligada ao MEC. 

“Programas com notas seis e sete [valor máximo] têm excelência mundial, mas podem estar em universidades que não estão no topo dos rankings globais”, diz Costa.

Ou seja: nas comparações entre universidades do globo, as brasileiras podem sair perdendo mesmo que tenham programas de excelência em algumas áreas da ciência. 

De maneira geral, as escolas que aparecem no topo dos rankings costumam ter maturidade institucional e orçamento bem parrudo.

Para se ter uma ideia, a melhor universidade do mundo no THE 2020, Oxford, do Reino Unido, foi fundada em 1096. Já a melhor brasileira, USP, é de 1934.

Para Daniel Pimentel, que defendeu em setembro um mestrado na USP sobre análise comparativa em rankings globais, devemos comparar universidades brasileiras com escolas no mundo que tenham um orçamento minimamente parecido com o nosso.

Assim, faria mais sentido, diz ele, analisar os indicadores da escola paulista em relação à Universidade de Calgary (Canadá), ambas com orçamento de US$ 1,3 bilhão/ano, do que em relação à Universidade Harvard (Estados Unidos) ou outras escolas bilionárias e centenárias. Caso contrário, sempre sairemos perdendo. 

 
Tópicos

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.